Escritor e editor Saulo Adami nasceu em Brusque, Santa Catarina, em 21 de fevereiro de 1965, filho dos comerciantes Tereza Conte e Luís Avaní Adami. Até dezembro de 2006, morou no bairro Arraial dos Cunhas, em Itajaí, cidade na qual fez seus estudos. Não cursou universidade, trabalhou mais de 20 anos como repórter e editor de jornais, e desde a infância escreve suas histórias. Publicou o primeiro livro aos 17 anos (Cicatrizes, poesia) e até setembro de 2010 publicou outros 46 livros de sua autoria, boa parte deles em parceria com a fotógrafa Tina Rosa, com quem seu casou há 25 anos.
Em 1975, escreveu e montou sua primeira peça teatral, Show do Riso. Em 1978, iniciou as pesquisas sobre as séries de cinema e TV O Planeta dos Macacos (Planet of the Apes) que resultaram nas publicações do fãzine Century City News International Edition e dos livros O único humano bom é aquele que está morto! (1996) e Diários de Hollywood: Um Brasileiro no Planeta dos Macacos (2008, edição português/inglês), na produção do documentário curta-metragem Forbidden Zone Telegraph (2000) sobre sua viagem de pesquisas aos Estados Unidos (1999) e na exposição multimídia A Casa do Macaco (The Ape House, 2001). Com Tina Rosa, criou a S&T Editores, que desde 2004 publicou mais de 70 mil exemplares de 60 livros de 25 autores diferentes nas áreas de literatura, história, direito, administração, biografia e cinema. Em Guabiruba, na Estância São Francisco de Assis, onde mora com a esposa, seus cães e milhares de pássaros que vivem livres, Saulo Adami cria e desenvolve projetos literários e produz livros de outros autores que o procuram para cuidar de suas obras. Membro da Academia de Letras Balneário Camboriú, ocupa a cadeira número 30, tendo como patrono Jorge Amado. Em 2009, seu quinto livro sobre a história de Brusque (Histórias e Lendas da Cidade Schneeburg), escrito com Tina Rosa, foi premiado pela Academia Catarinense de Letras como o melhor livro de história do ano. Em 11 de setembro, na Sociedade Esportiva Bandeirante de Brusque, lançou 8 mil exemplares da primeira edição do perfil biográfico Arthur Schlösser e a Criação dos Jogos Abertos de Santa Catarina (S&T Editores, 2010) durante o cinquentenário dos JASC.
Você sempre quis ser escritor?
SAULO ADAMI – Sempre. Na escola, quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, eu sempre respondia: “Quero ser escritor”. Eu queria ser um escritor com livros publicados sobre os mais diferentes assuntos, um escritor que recebesse cartas de leitores e colaboradores espalhados pelo mundo afora, que um dia teria uma estante abarrotada de títulos que escreveu, alguns deles publicados em outros idiomas.
E quando foi que esta história começou?
SAULO ADAMI – Esta história teve início em 1973, quando eu estava com meus oito anos de idade e começava a frequentar a segunda série da escola primária. Na pequena estante de livros que eu tinha no meu quarto, algumas obras referenciais da literatura dividiam espaços com histórias em quadrinhos – afinal, eu era normal –, e dicionários de idiomas, sendo que os mais atraentes para mim eram os de línguas espanhola e inglesa, além de revistas sobre cinema e seriados de televisão. Esta paixão pelas histórias me trouxe para os dias de hoje como alguém interessado em contribuir para transformar o quintal de nossa casa em outro planeta, em um planeta que vivia na cabeça de um menino que não se preocupava apenas em brincar; era um menino curioso, acima de tudo curioso, sempre interessado em abrir um livro para ler e para ver se descobria como tinha sido escrito e impresso. Como seria a gráfica que o imprimiu? Quem eram, como eram e onde poderiam ser encontrados aqueles homens que criaram aquelas histórias, que fizeram aquelas fotografias e ilustrações que tanto atraíram meus olhos e atiçaram minha imaginação? Eu admirava aquelas pessoas, e sonhava com a possibilidade de (um dia) poder realizar algo como elas realizavam. E se conseguisse fazer isso e ainda ganhar dinheiro com o meu talento, então seria perfeito! Já pensou, um garoto do Arraial dos Cunhas escrevendo histórias para todo mundo ler? Já pensou? E por que não?
Mas, do que você sobreviveu, antes de ser o escritor que sempre quis ser?
SAULO ADAMI – Eu fiz de tudo um pouco, desde serviços de copydesk até revisão, redação e edição de jornais. Fiz coberturas de eleições antes e depois da criação do voto eletrônico, catástrofes como as enchentes de 1984 e 2008, atendendo a todas as editorias, desde polícia até lazer e cultura. Comecei carreira profissional no jornalismo em 1985, colaborando com o semanário Tribuna de Brusque. Fui colunista, repórter e editor, e o meu trabalho chamou a atenção de outros jornais de maior abrangência, como os diários O Estado (Florianópolis), Jornal de Santa Catarina (Blumenau) e A Notícia (Joinville), onde fui repórter da sucursal de Brusque, nas décadas de 1980 e 1990. Encerrei minha carreira como jornalista em 2001, depois de passar um tempo nos Estados Unidos. Eu voltei para Brusque e fiz a transição do semanário O Município para o diário Município Dia-a-Dia. Criei o título do jornal, montei a equipe de redação e fui editor durante os primeiros cinco meses. Depois de 20 anos de trabalho na área, decidi que deveria mudar de rumo. Deixei o jornalismo para me dedicar exclusivamente à produção de livros, como escritor e editor. Guardei apenas as boas lembranças dessas experiências, foi um tempo bom no qual convivi com algumas das maiores expressões do jornalismo e do radiojornalismo daqueles tempos, e com todos aqueles profissionais ou amadores eu aprendi alguma coisa.
Você já era fã de ficção científica quando começou a pesquisar O Planeta dos Macacos? Quais eram as suas histórias favoritas?
SAULO ADAMI – Sempre gostei de ficção científica, li alguns livros de Isaac Asimov, Edgar Rice Burroughs e Edgar Wallace, assisti séries de TV Além da Imaginação, O Túnel do Tempo e Terra de Gigantes, mas nunca colecionei itens de outro tema a não ser do Planeta dos Macacos. Eu queria apenas estudar este tema, a coleção com os mais de 1.800 itens que tenho hoje foi consequência. Meu interesse era saber como tudo era feito: o cenário da cidade dos macacos, a maquiagem dos macacos e dos mutantes, o roteiro... Sempre fui curioso, e comecei a escrever meus contos e livros ainda criança. Eu lembro de mim escrevendo novas aventuras para personagens do cinema e da TV desde os 9 anos idade.
Quando você foi aos Estados Unidos pela primeira vez?
SAULO ADAMI – Em 1988, como convidado da Starcon, megaconvenção de cinema e televisão, oportunidade que devo ao meu amigo Jeff Krueger, de Anaheim, Califórnia. Na Starcon 97, Jeff coletou autógrafos dos atores em um exemplar do meu livro O único humano bom é aquele que está morto! (Editora Aleph/S&T Prtoduções, 1996), despertando a curiosidade dos organizadores do evento que me convidaram. Foi a realização de um sonho estar frente a frente com astros, estrelas e técnicos que fizeram a minha série favorita. Toda esta história está no livro Diários de Hollywood: Um Brasileiro no Planeta dos Macacos (S&T Editores, 2008), resultado de minhas anotações de viagens. Bilíngue (português/inglês), novidade para fãs e pesquisadores, e reúne fotografias e histórias exclusivas. Também foi impresso com recursos próprios.
O brasileiro não lê. Isto é lenda ou fato?
SAULO ADAMI – Há quem diga que o brasileiro não lê, mas isso não é verdade. Porque são publicados no Brasil mais de 60 livros por dia, são cerca de dois mil livros por mês, 21 mil por ano. Em Santa Catarina , somos mais de 300 editores, considerando-se apenas as pessoas jurídicas. Em 2008, a S&T Editores lançou 17 títulos, outros 11 em 2009... A produção literária tem crescido e acredito que em parte este crescimento se deve à facilidade que temos hoje em dia para publicar um livro em nosso próprio estado. Temos gráficas especializadas em livros em Santa Catarina , ao contrário de há 15 anos atrás, quando tínhamos que recorrer às empresas de São Paulo ou do Rio de Janeiro. Lembro que fazíamos quase tudo via sedex, que era caríssimo e há vinte anops atrás a comunicação era prejudicada pela inexistência de internet, por exemplo. Hoje, a história é outra: a qualidade do livro impresso pelas empresas gráficas de Santa Catarina é igual ou superior à média nacional.
Depois de impresso, qual a etapa mais difícil de ser cumprida na trajetória do livro como produto?
SAULO ADAMI – A distribuição... Santa Catarina ainda tem poucas distribuidoras. Se o livro não tem patrocínio, a distribuição fica quase inviável. O segredo está em divulgar, colocá-lo em livrarias e pontos alternativos, usar recursos da internet... No caso da S&T Editores, não dependemos da venda de livros. Vivemos da criação e do desenvolvimento de projetos editoriais, sendo contratados para escrever, revisar, editorar ou coordenar a edição de um livro.
O que ainda falta na historiografia catarinense?
SAULO ADAMI – Muita coisa. Quase tudo, a começar por autores interessados. Não nascem escritores todos os dias, principalmente interessados em escrever sobre história de suas comunidades, histórias de famílias ou biografias de personalidades ou de anônimos que ajudaram a construir a história de Santa Catarina.
Como nasce um escritor?
SAULO ADAMI – Da observação, da persistência e da fé. Eu sempre digo que tudo dá um livro. Escrever dá trabalho, mas é um exercício de solidariedade. Através do livro, compartilhamos ideias, aspirações e conhecimento, e por isso quem escreve nunca está sozinho, e quem lê, também não está sozinho.
Como é a sua rotina como escritor?
SAULO ADAMI – Eu escrevo todos os dias, por horas. Não escrevo um livro de cada vez, nem gosto de ficar muito tempo com um mesmo tema, não importa o gênero que escreva. Em 2010, trabalhei em seis livros, simultaneamente, e não é raro acontecer lançamentos de mais de um título diferente no mesmo mês. Quando termino meu trabalho, e entrego o livro aos leitores, eu me sinto premiado porque me realizo na minha profissão. Ser escritor é uma felicidade rara.
Quando foi criada a S&T Editores?
SAULO ADAMI - Em 2003, quando assinamos o primeiro contrato para pesquisar, redigir e editar um livro com a história de uma cidade: Vidal Ramos, no Alto Vale do Itajaí. Paisagens da memória: A Criação do Município de Vidal Ramos foi lançado em dezembro de 2004. Eu estava desempregado havia nove meses, e tentava aliar a minha capacidade de trabalho à minha velocidade de produção de textos – habilidade adquirida como repórter, editor e assessor de imprensa – e à realização de um sonho de criança, que era viver do ofício de escrever e publicar livros. Deste esforço, nasceu a S&T Editores. A partir da criação da empresa, pela primeira vez municípios como Massaranduba, Vidal Ramos, Imbuia, Ilhota e Aurora tiveram sua história resgatada em livro. Ela surgiu como uma empresa para a produção de nossos próprios livros, mas com a procura de outras pessoas pelos nossos serviços, decidimos abrir espaços para a publicação de livros de outros autores. Hoje, nosso catálogo tem 60 títulos.
Por que a sua editora tem como símbolo um cachorro?
SAULO ADAMI – Muitas pessoas nos perguntam a mesma coisa. A cachorrinha da logomarca é nossa amada e fiel amiga de quatro patas se chamava Bella, da raça Airedale Terrier, uma bênção que chegou às nossas vidas em fevereiro de 1996, aos sete meses de idade, companhia para nossa querida Sissy, da raça Pastor Belga, de nove anos. Dois meses depois, foram envenenadas com estricnina por alguém que, fazendo isso, destruiu parte de nossa vida. Perdemos Sissy, depois de 15 dias, mas a Bella sobreviveu, graças a Deus e a competência do médico veterinário Edson Rogério de Souza. Bella sobreviveu e ficou ao nosso lado por mais oito anos, e morreu em 14 de abril de 2005. Está sepultada na Estância São Francisco de Assis, em Guabiruba.
Você e Tina Rosa escreveram vários livros sobre história de municípios de Santa Catarina e editaram livros de outros autores sobre outras cidades. A série de cinco livros sobre Brusque é a sua maior realização, como autor?
SAULO ADAMI – É uma delas. Cada livro tem sua importância e razão de existir. Todo livro merece ser publicado e lido. A série sobre Brusque é uma das campeãs de venda da S&T Editores. Foram cinco obras (Brusque: Cidade Schneeburg, 2005; Brusque Era Maior: Viajantes do Tempo, 2006; Brusque Vai à Guerra: Novas Visões da História, 2007; Brusque Operária: Comércio e Indústria, 2008; e Histórias e Lendas da Cidade Schneeburg, 2009), seis mil exemplares e mais de duas mil páginas de textos e fotografias em cinco anos. Não conheço projeto similar em Santa Catarina.
Uma das funções de um editor é tirar autores do anonimato. O seu trabalho na S&T Editores também consiste nesta prática?
SAULO ADAMI – Sim, e neste ponto demos sorte! Basta olhar ao redor para ver os primeiros livros de Nestor Adolfo Eckert (Memórias de Guri da Roça, 2005; Vida Secreta de Seminarista, 2007), Valdir Appel (Na Boca do Gol, 2006; O Goleiro Acorrentado, 2010), Gênice Suavi (Anjo Aprendiz, 2007; Qual é a sua Verdade?, 2009), Marly Scottini Geiser (Uma Face), Maria do Carmo Tridapalli Facchini (Prelúdio Poético, 2005; ...Com Liberdade às Borboletas!, 2009), Naomi Gevaerd (Os Sete Anos de Thalia, 2009, que ela mesma ilustrou) e Lilli Zwetsch Steffens (Nas Mãos de Deus, 2005), que chegou à oitava edição em 2010.
É o livro com o maior número de edições?
SAULO ADAMI – É, e acho que vai mais longe ainda. Nas Mãos de Deus é a história real de Lilli Zwetsch Steffens, que aos cinco anos de idade perdeu seus dois braços em uma moenda de cana, no interior de Lontras, Santa Catarina. A fatalidade não impediu que ela se desenvolvesse, se alfabetizasse, casasse, tivesse três filhos e ainda trabalhasse como costureira. É um grande exemplo de vida e de superação, que merecia ter a sua história publicada. Eu adaptei a autobiografia que ela escreveu com os pés. O livro teve oito edições de 2005 a 2010, e isso corresponde a uma tiragem superior a 7 mil exemplares. Os livros são vendidos pela própria autora, durante as palestras motivacionais que ela ministra por onde passa. É uma vitória para todos nós!
Qual o livro que mais o realizou, como autor?
SAULO ADAMI – Cada livro tem sua própria história, sua própria identidade e, é claro, a sua importância. Para mim, todos são interessantes e importantes, cada um é parte de mim, cada um é parte da minha história. Gosto de escrever e publicar literatura, e tenho mais uma dúzia de títulos esperando oportunidade. Tenho livros com peças teatrais, sobre cinema, com ensaios... Mas, oportunidades de publicação não surgem todos os dias, mesmo para quem é dono de uma editora.
A imprensa catarinense divulgou que você escreveu um livro em 23 dias. Foi isso mesmo?
SAULO ADAMI – Foi. De viagem marcada para Alto Paraíso de Goiás, contratei uma entrevistadora para me substituir durante minha ausência: Giselle Zambiazzi veio de São Paulo para entrevistar 12 pessoas. Ela fez tudo em nove dias, eu fiz a redação do livro também em nove dias. Depois que ele deu entrada na gráfica, ficou pronto em cinco dias. Foi o mais rápido que produzi depois de Walter Orthmann: 70 Anos de Trabalho na RenauxView (S&T Editores, 2008), produzido em 45 dias, e com uma agravante: Orthmann foi entrevistado sem saber do projeto do livro, ele só descobriu a surpresa quando abriu um pacote e descobriu que o presente, ao invés de ser uma placa de homenagem, era um livro contando a sua história. Esta imagem eu vou guardar para sempre na memória. Assim como Walter Orthmann também jamais se esquecerá daquele presente.
CONTATOS:
Com Saulo Adami:
E-mail: